FOTOGRAFIA


Cada pedacinho de luz, na trilha que leva ao monte, pequenas flores vermelhas são acompanhadas pelo mar das altitudes e o que é pedra, pode ter certeza, também se move.




Faziam 15 minutos que eu estava ali agachado, parado, imóvel, as pernas já doíam fazia algum tempo. Qualquer movimento faria com que toda a vida no mangue voltasse para suas tocas. Aí seriam outros 15 minutos ou mais para que encontrasse novamente aqueles seres que habitavam o lamaçal. Foi quando escutei ao longe o barulho do motor de um Po-po-pó. O som não poderia dizer se era um barco de pescadores grande ou pequeno, mas cada vez que se aproximava, percebia que desta vez ele passaria próximo a mim.
Num movimento lento, quase estático, girei minha cabeça por cima do meu ombro, queria observar o barco sem que todo meu esforço da espera fosse em vão. Totalmente contorcido, desconfortável, mas com todos os seres ainda em minha volta. Esperei ansioso. O som era cada vez mais forte.
De repente, num giro brusco, tomei outra posição, realizei os reparos necessários para uma nova fotografia. Eu abandonava aquele habitat sombrio para ganhar a luz. Em dois ou três segundos minha máquina já estava pronta para o novo. Mas hesitei em dar o click. Agora eu era o único ser do mangue, eu era agora o observado. Eu e minha máquina empunhada sobre meus olhos. O garoto a minha frente, sentado em seu lugar de honra como um pequeno rei, balançava suas pernas e parecia me contemplar. Eu fiquei assustado, ele não. Nada poderia tirá-lo de seu estado de paz.

Meu tempo havia se esgotado. No último milésimo de segundo, meu dedo então apertou o gatilho. Eu não matara o garoto, eu o tornara imortal.
Fiquei ainda um tempo a observá-lo se perder na distância. Eu estava cheio de inveja, queria que aquele sonho de ser rei fosse meu.